WWW – UM NOVO MAPEAMENTO DE PODERES

Chris Hughes, 24, uma das integrantes mais novas da Triple O (equipe responsável pelas relações online na campanha de Barack Obama), disse ao Washington Post que a campanha foi uma lição. “Aprendemos que a internet tem um imenso potencial para mostrar a pessoas que nunca haviam se envolvido com política que este é um assunto que pode impactar nas suas vidas. A premissa fundamental era permitir que o processo político ficasse nas mãos das pessoas. Esse era o valor do início da campanha, e foi o valor do final da campanha e ele não vai desaparecer”.

A notícia acima foi tirada do site da Folha de São Paulo. Na mesma matéria outros dados interessantes sobre a campanha online de Obama:

> 3 milhões de internautas fizeram 6,5 milhões de doações pela Web no valor médio de US$ 80, somando US$ 500 milhões. O total da arrecadação da campanha de Obama soma US$ 600 milhões;

> 13 milhões de internautas deixaram seus e-mails cadastrados no site do candidato; Por e-mail, a assessoria de imprensa de Obama enviou aos internautas mais de 1 bilhão de mensagens durante a campanha; Com ajuda da Internet, 200 mil eventos foram organizados, 400 mil textos foram postados em blogs e 35 mil grupos voluntários foram criados;

> Além de sua página de campanha, Obama criou 15 comunidades em outros sites, incluindo o BlackPlanet, MySpace e Facebook. Neste último, 3,2 milhões de pessoas aderiram à comunidade, um grupo chamado Estudantes por Barack Obama, criado em julho de 2007.

O cenário exposto, embora parcial, oferece indícios da importância da comunicação em rede para pequenas e grandes decisões e definições na briga por poder no mundo atual. Durante sua campanha, Obama obteve uma média de 92 milhões de aparições na Internet por mês, contra 7 milhões do senador John McCain. Analistas apontam a recente eleição para presidente americana como a eleição dos jovens e a eleição da Internet.

Não nos surpreende perceber que jovens e Internet andaram juntos. Já em 2004 uma pesquisa da Online Publishers Association trazia os seguintes dados: para 50,5% daqueles com idade entre 18-24 anos, a Internet seria a primeira escolha no universo das mídias. Na faixa de idade entre 25-34, seria a primeira escolha para 43,6%, e entre 35-54, para 42,8%. A mídia preferida como segunda escolha seria a TV para todas as faixas etárias, e à medida que a idade crescia, a TV também crescia, tomando lugar da Internet com primeira escolha.

Será que haveria uma volta tão intensa dos jovens à política tradicional nos EUA caso a Internet não existisse? Talvez nem mesmo na atual situação de crise política e econômica e com todo o carisma de Obama. A grande novidade que a Web e sua multidão de pequenos agentes oferecem é um certo contrabalanço à festa da manipulação levada a cabo por setores da mídia centralizada; um pouco de caos pode trazer muito mais luz do que se imagina.

A esperança é de que daqui para frente essas pequenas multidões desenvolvam métodos de inteligência coletiva e participativa cada vez mais eficientes para fazer frente ao controle de velhas oligarquias políticas e midiáticas. Fatos interessantes no programa político de Obama, que vem sendo escrito após sua eleição, valem a pena serem ressaltados nesse contexto. Contrariando tendências ideológicas do governo republicano, um de seus pontos, na área de comunicação e tecnologia, diz (tradução minha): “Uma das razões mais importantes para o sucesso da Internet é o fato de ela ser a rede mais aberta na história. E precisa continuar sendo. Barack Obama apóia veementemente o princípio da neutralidade da rede para preservar a competição aberta na Internet”. Tal declaração vai de encontro a projetos corporativos nos EUA, que recentemente vêm mostrando interesse em criar infraestruturas diferenciadas de acesso à Internet, oferecendo redes gratuitas e lentas para alguns, e construindo redes de acesso rápido e pago para outros. A segunda teria maior participação e controle de grandes grupos políticos e empresariais. Paulatinamente vêm surgindo movimentos inversos em vários setores não corporativos sob a bandeira do movimento chamado “net neutrality” (neutralidade da rede).

Em outra passagem, em direto ataque às tendências mostradas pelo governo Bush, seu programa diz: “As plataformas abertas de informação do século 21 podem tentar instituições a violar a privacidade dos cidadãos. Como presidente, Barack Obama vai fortalecer as proteções à privacidade na era digital e vai incrementar o poder da tecnologia a fim de responsabilizar o governo e empresas por violações da privacidade pessoal.” E mais uma: “Obama valoriza as liberdades da primeira emenda e o nosso direito à expressão artística e não vê regulamentações como resposta possível a essas questões”. E ainda: “Barack Obama acredita que precisamos reformar nosso sistema de direitos autorais e patentes para promover o discurso cívico, inovação e investimento…”.

São posições políticas relevantes em um tempo em que a rede mundial de computadores começa a balançar diversos sistemas de proteção e elitização do conteúdo intelectual, do controle da expressão e da liberdade individual. Tal engajamento é necessário a fim de manter as opções de ação adquiridas nesses campos com o advento da tecnologia digital e da WWW. Fica uma sugestão: dê uma procura na Internet por “neutralidade da rede” ou “net neutrality” para se colocar a par das dificuldades que hoje vêm sendo enfrentadas para manter a Internet aberta, livre e como opção de construção de linguagens e ações alternativas. Ou acompanhe o blog do Sérgio Amadeu, pensador brasileiro que participa ativamente do processo de construção da nova legislação brasileira sobre a internet.

Alemar. S. A. Rena

 

[Publicado originalmente no Jornal Letras, BHZ]

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