KRAFTWERK E O FIO DA MEADA… 20 ANOS DEPOIS

 

Vale a pena notar como a tecnologia às vezes assume um papel fundamental nos caminhos das artes. Falando de música mais especificamente, a década de 80 mostrou uma produção especialmente estranha quando observamos o uso da linguagem eletrônica. Embora bandas como o Kraftwerk (alemães) e o New Order (ingleses) já tivessem mostrado caminhos interessantes e especiais para a composição e gravação com o uso de aparatos eletrônicos em 70 e início de 80, e mesmo antes, já em 50, artistas de vanguarda como Karlheinz Stockhausen (alemão) já vinham propondo novas possobilidades de criação com a música eletroacústica, pode-se dizer que a maior parte da música de 80 fez um aproveito pouco inventivo dessas, então, recentes tecnologias. Falo especificamente da música Pop, que muitas vezes pensava os samples e o uso de sintetizadores como possibilidade de réplica (simulacro) do acústico, trazendo à vida sonoridades muito pobres, beirando à música brega mesmo. Embora o eletrônico já estive presente, não era uma questão da linguagem e do conceito, como era para o Kraftwerk. É claro que essa realidade do eletrônico nos anos 80 era uma realidade da música, da moda e do comportamento mais ou menos como um todo, que passavam por uma fase esquisita, que a gente aqui em BH teve oportunidade relembrar nas festas temáticas dos anos 80, produzidas no início dos anos 00 n´A Obra Bar Dançante e depois pulverizadas por toda a noite de Belo Horizonte.

A mudança somente se deu com o aparecimento da chamada geração Grunge na década de 90, que buscava direções radicalmente diferentes, resgatando as tendências do Punk de fins da década de 70, mas que nada tinha de eletrônico. No Brasil vieram Chico Science e Nação Zumbi e o movimento Manguebeat, entre outros, que já incorporavam tendências do eletrônico-digital (“computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro…”, dizia Chico Science). Mas o eletrônico, o digital, ainda não havia se firmado de fato como possibilidade de produção de alto nível e ampla; se assim fosse, teria certamente começado com o Kraftwerk e outros que teriam influenciado toda uma geração de bandas eletrônicas logo ali, nos anos 80. O fio da meada, abandonado em fins de 70, somente pôde ser resgatado de forma ampla – porque no universo underground o eletrônico sempre existiu desde 70 – de noventa e poucos para frente, vinte anos depois. É possível dizer que o Kraftwerk e afins foram visionários de dimensão tal que passaram 20 anos para que se realmente entendesse, aceitasse e retomasse em grande escala a proposta (conceitual e estética)  do eletrônico sofisticado que faziam antes da avalanche Pop oitentista. Não é uma questão, para o eletrônico pós 90, de olhar para trás e se deixar influenciar pelo Kraftwerk; trata-se de uma retomada em grande escala de um projeto de música que, por razões diversas, não havia ganhado espaço. Não se trata de releitura; trata-se de continuação de um projeto, exageradamente a frente do seu tempo, estranhamente abortado.

Na música, o eletrônico digital foi sem dúvida uma das mais interessantes rupturas desde o Rock em 50 e 60 (que em si devem muito à tecnologia pelo aparecimento da guitarra elétrica). De meados de 90 para frente, a nova linguagem do computador, dos editores, dos samples, dos sintetizadores esteve ou está presente em quase tudo de mais interessante, trazendo revigorados ares. Claro que tudo isso tem muito a ver com a popularização do computador pessoal, que permite compor sem precisar do estúdio profissional, recurso ainda hoje muito caro para o artista iniciante ou independente por escolha. E quanto à linguagem, dada a riqueza de possibilidades de composições estéticas que softwares como Live, Reason, e a suite da Native Instruments oferecem, ela está mais diversificada do que nunca; há Rock, Disco, contaminação dos sessenta, da MPB, do Folk, do Dub, da música Eletroacústica, etc. E há também, é claro, a volta dos 80, com o Electro e outros “estilos”, mas não sem as devidas doses de ironia e desconstrução, típicas da música atual.

Em Belo Horizonte, algumas produções se destacam, mas vamos direto ao assunto: na Internet, visite:

Esquadrão Atari: www.myspace.com/esquadraoatari

Roger Moore: www.myspace.com/rogermoorelive

Retrigger: www.retrigger.net/

Digitaria: www.myspace.com/digitariamusic

Anderson Noise: www2.uol.com.br/noise/

Há também DJ’s importantes, como o Blip, Kowalsky, Leo Mille, Robinho, Daniel Maia, LP e outros, que contribuíram para que a música eletrônica na cidade definitivamente ganhasse o grande público. Para mais informações sobre a história da música eletrônica em BH vá a:

www.drumbass.com.br/forum/index.php?showtopic=2112&mode=linear

Alemar S. A. Rena

 

[Publicado originalmente no Jornal Letras, BHZ, republicado aqui com algumas alterações]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *


− 8 = 1