ECONOMIA CRIATIVA DA WWW

Pessoas comuns, como você e eu, com as nossas pequenas colaborações no espaço virtual, podem ganhar dinheiro com isso? E mais: querem? O que queremos afinal de contas com toda essa troca de conteúdos e produtos digitais das mais diversas categorias em espaços como Myspace, Overmundo, entre tantos outros?

Hernani Dimantas, em um texto chamado “A Multidão Hiperconectada”, afirma que “não existe colaboração sem generosidade. Colaboração não é ajuda. (…) Tem a ver com projetos de interesse comum”. Bem, se são projetos de interesse comum, então também estamos sendo generosos com nós mesmos… Generoso consigo e com o outro, ou, melhor ainda, através do contato, da conexão com o outro. Acho que aqui está parte da resposta para nossa pergunta: o homem contemporâneo, pelo menos os mais antenados na vivência em rede, intui que há algo de especial e valioso na conexão, no agenciamento, na multiplicidade, na coletividade.

A massa é burra, mas a coletividade é inteligente. Uma coletividade em que seus agentes possuem autonomia para criar, falar, em fim, agir livremente; porque se não há autonomia, então voltamos a ser massa. Assim, o “lucro” nessas trocas é que todos produzimos o que gostamos de produzir, porque nos divertimos com isso, e disponibilizamos para os outros. Os outros, sem exigirem nada de você, fazem o mesmo. Entramos então em uma lógica do escambo mesmo, só que trocamos coisas que adoramos fazer; e buscamos na rede outras coisas que gostamos de ter por perto, mas não sabemos exatamente como fazer.

O que isso demonstra (pelo menos creio que seria uma hipótese a ser considerada) é que se nos darmos oportunidades reais de vivência coletiva em rede e com autonomia, podemos ser seres sociais mais inteligentes.

Deve-se lembrar, no entanto, que a troca de conteúdo intelectual, como histórias, poemas, músicas, jogos, receitas médicas, receitas de pratos etc., durante grande parte da história humana foi algo natural, fazia parte dos processos cotidianos de invenção e comunicação oral das comunidades. Mas algo mudou, principalmente desde que a imprensa foi inventada e difundida nos quatro últimos séculos. Juntamente do nascimento da ferramenta “livro”, que passou a ser (re)produzida em escala, foi necessário que se criasse a figura de um responsável pelo que o texto impresso dizia (anteriormente, como o texto era oral, um produtor ou um responsável ia automaticamente junto do texto); um forma de controle pela nobreza e clero. A esta figura, hoje ubíqua, foi dado o nome de autor.

Desde o advento do capitalismo e incremento dos meios de comunicação de massa, a função social da figura autoral se transformou, sendo apropriada e reelaborada pela chamada indústria cultural; na verdade, sem o autor e suas novas funções, provavelmente a indústria do conteúdo nem mesmo existiria. Como se pode imaginar, estas funções estão diretamente relacionadas à idéia de comércio do produto intelectual, da promoção, da propagação em escala nacional e transnacional dos conteúdos.

Mas o que acontece quando todos passam a poder produzir, acessar e publicar conteúdos utilizando-se de meios e tecnologia atual, assim como os produtores profissionais da indústria do conteúdo? O filósofo francês Jean Baudrillard disse certa vez: “Se um indivíduo morre sua morte é um acontecimento considerável, enquanto que se mil indivíduos morrem, a morte de cada um é mil vezes menos importante”. Isso é o que vem acontecendo com a WWW. São milhões de produtores desapegados do comércio e do lucro trocando suas pequenas criações.

No entanto, estudos mostram que, de todo o capital que circula na WWW, grande parte está concentrado nos bolsos de pouquíssimas empresas, como a Yahoo!, a Microsoft, a Google, etc. Igualmente, importantes empresas do mercado tradicional lá estão, buscando migrar parte de suas estratégias de mercado para o universo da rede. Elas buscam dar continuidade ao seu mecanismo de promoção e venda em grande escala dos produtos que desenvolvem. Basta verificarmos a lista dos 15 nomes mais pesquisados no Google no Brasil; lá se encontram nomes como Laura Pausini, Legião Urbana, Madona, Simpsons, Flinstones e Scarlett Johansson.

Por fim, certamente criadores marginais (amadores ou profissionais) que postam seus trabalhos na Web para download podem fazê-lo também com fins de promoção pessoal ou, no caso dos mais profissionais, como parte integrante de uma estratégia de negócio de sucesso; e ainda há sempre os pequenos com grandes idéias que vez por outra se tornam hits multimilionários; exemplos, entre muitos, são o filme Bruxa de Blair, o You Tube e o site The Million Dollar Homepage, este último de um garoto inglês que foi para a Web atrás de dinheiro para pagar a faculdade; ele pôs no ar uma página em que vendia cada pixel, para fins publicitários, por 1 dólar. A idéia era simples, mas diferente, e pegou. O garoto levou muito mais do que o milhão de dólares almejado de início e ganhou exposição em escala global. O endereço, para quem ainda não viu, é: www.milliondollarhomepage.com.

Alemar S. A. Rena

[Publicado originalmente no Jornal Letras, BHZ]

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