A BREVIDADE DA ANONIMIDADE

Na foto: The Mobee —

Numa análise automática de faces da minha biblioteca de fotos digitais, das 231 imagens que o Google Picasa apontou espontaneamente como sendo de uma amiga, 227 estavam corretas. Errou apenas 4, em que a confundiu duas vezes com sua irmã, e duas vezes com sua prima, muito parecida com ela. No meu caso, o software me identificou em 311 imagens corretamente.

Nós, que já estamos acostumados a sermos superados pelo computador em áreas que envolvem raciocínio lógico e cálculos, podemos começar a nos preparar para coisas dessa natureza, viver com uma máquina que reconhece sua mãe em fotos mais rápido e eficientemente que você.

Caminhamos cada vez mais para uma encruzilhada entre o que queremos manter privado e o que queremos ou precisamos compartilhar. Não é uma questão nova, e imagino que, quando Napoleão decidiu numerar as casas para melhor controlar as multidões na França do séc. XIX, ela lá já se instalava. A novidade é que a privacidade hoje vem sendo renunciada por uma considerável parte das pessoas na expectativa de se obter em troca vantagens e aperfeiçoamentos nos serviços oferecidos pelas empresas, principalmente nas diversas redes da Internet.

Sabendo onde me encontro, por exemplo, o robô virtual da Google (o Googlebot) pode responder com muito mais precisão a uma pesquisa qualquer no seu Google Maps sobre, digamos, serviços de chaveiros. Ou ainda, usando tecnologias semelhantes às do Google Picasa, o software de reconhecimento de faces do Facebook pode, por exemplo, me dizer (ou dizer aos meus amigos) automaticamente em que imagens em sua vasta rede minha face se encontra presente.

Zigmunt Bauman recentemente escreveu para o Guardian um artigo sobre o assunto intitulado “Is this the end of anonimity?” Nele avalia como, de micro-drones à internet, a tecnologia invade a esfera privada com nosso encorajamento. Os micro-drones, máquinas desenvolvidas com fins militares para sobrevoar e espionar uma determinada área geográfica, estão hoje super avançados, e chegaram ao tamanho de insetos. Isto é, existem hoje tecnologias suficientemente sofisticadas não só para identificar sua face em meio a uma multidão sem muita dificuldade, mas também para gerar insetos voadores que podem coletar dados e os enviar a um banco de dados. Se você acha que estou exagerando, baixe o Picasa e faça o teste. E assista ao vídeo acima.

Uma consequência para a qual Bauman chama atenção é o aumento da indiferença do público, especialmente nos EUA, em relação às guerras, uma vez que progressivamente menos vidas (do lado daqueles que detêm a tecnologia bélica) são colocadas em risco. No Afeganistão, por exemplo, mais de 1.900 insurgentes foram mortos com o apoio de drones. Outras radicais possibilidades são entrevistas com o uso destes objetos inteligentes enquanto estratégia de espionagem; imagine se cada mosquito ou pássaro no mundo puder, inadvertidamente, ser um objeto de bisbilhotagem nas mãos do Estado ou de criminosos.

Na publicidade, a subversão da anonimidade ao estilo “Minority Report” já ganha o mundo real. Recentemente uma matéria do TechCrunch revelou que uma empresa americana chamada Immersive Labs levantou quase um milhão de dólares para pesquisar painéis de anúncios com reconhecimento facial que poderiam assim oferecer a cada transeunte informações personalizadas sobre os produtos em “display”. A diferença em relação a “Minority Report”, salvo engano, é que no filme de Spielberg os painéis leem a íris dos passantes, em vez da face.

É importante, entretanto, frisar que a atual realidade difere-se substancialmente daquele mundo imaginado por George Orwell em “1984”, livro escrito na década de 1940 e considerado uma das mais importantes representações literárias de uma sociedade distópica. Difere-se também do contexto sociopolítico que influenciou Orwell, isto é, o vertiginoso ganho de poder de Estados autoritários no Ocidente e a tentativa de invasão e dominação da Europa pela Alemanha de Hitler. Os procedimentos nazistas em direção ao controle dos corpos passavam, vale lembrar, pela eugenética e higiene racial e implicavam experimentos com humanos e o extermínio de grupos populacionais para se atingir uma raça pura e superior. Aqui, a invasão da liberdade e violação do corpo atingem um ponto alarmante e adentram o campo da manipulação genética (mesmo que sob a sombra da enquanto primitiva tecnocracia do Holocausto), uma fronteira que, embora estivesse no horizonte de preocupação de ficcionistas como Aldous Huxley com seu “Admirável mundo novo” (1932), ainda se coloca para nós, cidadãos do séc. XXI, como um mundo apenas tateado e perigoso de ser explorado.

Não por acaso, assim como “1984”, “Admirável mundo novo” foi escrito num contexto de difusão das ideologias totalitárias na Europa da década de 30. Imaginário futurista similar a esse, em que as massas estão constantemente sendo vigiadas por câmeras e agentes do Estado, persistiu até a década de 60, com filmes como “Alphaville”, de Jean-Luc Godard. Porém retornaria com nova roupagem, desta vez pelo imaginário cyborg de Philip K. Dick em “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (1968) e, mais adiante, pelo espectro do controle cibernético do mundo decadent punk de William Gibson em “Neuromancer”, de 1983.

Aqui o controle ganha contornos mais estranhos às gerações modernas e se aproxima das pós-modernas ao alocar o perigo imediato, não apenas no homem, mas na eventual autonomia adquirida pelas máquinas inteligentes. Possuímos hoje, muito mais do que em meados do século XX, tecnologias que carregam grande potencial, mas será que a humanidade está pronta para levá-las às últimas consequências? A genética abre as portas para o poder extremo sobre o corpo, nos aproximando mais do que nunca da figura divina do deus cristão, porém impõe desafios imensuráveis. A última fronteira da medicina pode ser também a última fronteira para a exclusão e ampliação das diferenças entre os povos, as classes e as raças humanas na terra, e é, muito mais do que antes, uma realidade palpável.

Todavia, se cidades como Londres e até capitais brasileiras como Belo Horizonte se tornam paulatinamente mais monitoradas pelas câmeras e outros dispositivos, ou se a Google tem acesso ao comportamento de grandes populações e pode traçar, baseando-se em seu gigantesco banco de dados, tendências e gráficos sobre elas, isto se dá em um ambiente relativamente mais democrático e transparente do que aquele ficcional em que imperava a manipulação total da informação e da cultura pelo Big Brother orwelliano e sua ideologia IngSoc, embora, não sejamos ingênuos, levanta sérias questões sobre os jogos de poder e a violação da privacidade e seus fins.

Talvez a novidade, como apontou Bauman, esteja no fato de estarmos abrindo mão de nossa privacidade cada vez mais facilmente, sem termos plena consciência se o que recebemos em troca está, realmente, à altura do que oferecemos. No fim das contas, tendemos a nos parecer, na pior das hipóteses, mais com a subdemocracia de “Minority Report” do que com o hiperfascismo de “1984”.

O que, convenhamos, já é bastante desesperador. Mas, veja a ironia, a década de 1940 também tendia, para Orwell, a “1984”. Esta é uma lição que jamais se deve esquecer, pois antes de ser um alívio (não vivemos aquele mundo de “1984”), mostra que o futuro tende ao que nem sempre se espera, e todo cuidado com as tecnologias, sociais e materiais, como a história recente comprova, pode ser pouco.

Isso não significa que a saída se encontra numa inclinação à tecnofobia, como querem alguns radicais. Afinal, não faz sentido, por exemplo, negligenciar a Internet, que pode muito bem ser – apesar dos percalços (AI-5 Digital do Azeredo no Brasil, SOPA, FISA, ACTA e outros atos de maior ou menor sucesso para seu controle nos EUA e no resto do mundo) – a tecnologia mais potente já inventada para se construir a democracia e a liberdade, uma vez que permite que uma multidão disseminada, conectada e colaborativa devolva a pressão aos biopoderes imperiais.

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Texto originalmente publicado na Revista Select: http://www.select.art.br/article/reportagens_e_artigos/anonimidade

INDÚSTRIA, SOPA E A BATALHA MUNDIAL PELO CONTROLE DA CULTURA

Há uma guerra em curso entre a cultura popular, híbrida e flexível das redes e os grandes conglomerados da produção de bens simbólicos. Setores do governo americano estão pressionando os ministérios da cultura em todo o mundo (como ficou comprovado com vazamentos recentes de comunicações diplomáticas na Espanha) para aprovar leis nacionais que reflitam os desejos e as diretrizes da grande indústria cultural. No entanto, estes setores precisam também levar a cabo reformas em sua própria casa, por isso tramita no congresso americano um projeto de lei chamado SOPA.

Se este projeto for aprovado (e não for vetado pelo governo Obama, que vem tecendo críticas abertas a seu enfoque) a internet como conhecemos pode mudar radicalmente a favor de corporações como Disney, Warner, Sony, etc. Boa parte do conteúdo que circula, por exemplo, nos blogs, em fóruns, nas redes sociais, no You Tube, etc. pode desaparecer e a cibercultura pode se tornar sinônimo de um agrupamento de grandes e industrializados canais, como aqueles da televisão. O compartilhamento de fragmentos de informações de jornais, revistas, poemas, músicas, vídeos seria criminalizado. Medidas draconianas seriam implementadas a fim de punir os serviços ou usuários que desobedecerem as antiquadas leis do direito de propriedade, que, da forma como são hoje dispostas, promovem o monopólio global da produção de linguagens, e não a cultura, o público ou os autores.

No Brasil, o ex-senador e atual deputado federal Eduardo Azeredo e o seu chamado AI-5 Digital (projeto de lei proposto no congresso) foram derrotados por pressão popular numa primeira etapa, mas o embate prossegue (leia a matéria da Carta Capital para entender em que ponto se encontra esta briga). Da mesma forma, a ministra da cultura do governo Dilma Rousseff vem se revelando cada vez mais como um fantoche nas mãos do grande capital e, numa flagrante incapacidade de discernimento, defendendo uma lógica falida de institucionalização da produção de bens simbólicos em suposta defesa da cultura.

Hoje alguns países como a Suíça têm se posicionado contra qualquer tipo de cerceamento da troca e remix de conteúdos nas redes, se apoiando em recentes estudos que mostram que estas práticas podem beneficiar uma renovada cultura e revitalizar o próprio mercado.

Nesta quarta-feira grandes sites (como a Wikipédia) irão parar em um protesto contra o SOPA, que está perigosamente perto de ser aprovado. Veja entrevista de Sérgio Amadeu esclarecendo melhor o assunto. Saiba mais também nesta matéria de O Globo.

WWW – UM NOVO MAPEAMENTO DE PODERES

Chris Hughes, 24, uma das integrantes mais novas da Triple O (equipe responsável pelas relações online na campanha de Barack Obama), disse ao Washington Post que a campanha foi uma lição. “Aprendemos que a internet tem um imenso potencial para mostrar a pessoas que nunca haviam se envolvido com política que este é um assunto que pode impactar nas suas vidas. A premissa fundamental era permitir que o processo político ficasse nas mãos das pessoas. Esse era o valor do início da campanha, e foi o valor do final da campanha e ele não vai desaparecer”.

A notícia acima foi tirada do site da Folha de São Paulo. Na mesma matéria outros dados interessantes sobre a campanha online de Obama:

> 3 milhões de internautas fizeram 6,5 milhões de doações pela Web no valor médio de US$ 80, somando US$ 500 milhões. O total da arrecadação da campanha de Obama soma US$ 600 milhões;

> 13 milhões de internautas deixaram seus e-mails cadastrados no site do candidato; Por e-mail, a assessoria de imprensa de Obama enviou aos internautas mais de 1 bilhão de mensagens durante a campanha; Com ajuda da Internet, 200 mil eventos foram organizados, 400 mil textos foram postados em blogs e 35 mil grupos voluntários foram criados;

> Além de sua página de campanha, Obama criou 15 comunidades em outros sites, incluindo o BlackPlanet, MySpace e Facebook. Neste último, 3,2 milhões de pessoas aderiram à comunidade, um grupo chamado Estudantes por Barack Obama, criado em julho de 2007.

O cenário exposto, embora parcial, oferece indícios da importância da comunicação em rede para pequenas e grandes decisões e definições na briga por poder no mundo atual. Durante sua campanha, Obama obteve uma média de 92 milhões de aparições na Internet por mês, contra 7 milhões do senador John McCain. Analistas apontam a recente eleição para presidente americana como a eleição dos jovens e a eleição da Internet.

Não nos surpreende perceber que jovens e Internet andaram juntos. Já em 2004 uma pesquisa da Online Publishers Association trazia os seguintes dados: para 50,5% daqueles com idade entre 18-24 anos, a Internet seria a primeira escolha no universo das mídias. Na faixa de idade entre 25-34, seria a primeira escolha para 43,6%, e entre 35-54, para 42,8%. A mídia preferida como segunda escolha seria a TV para todas as faixas etárias, e à medida que a idade crescia, a TV também crescia, tomando lugar da Internet com primeira escolha.

Será que haveria uma volta tão intensa dos jovens à política tradicional nos EUA caso a Internet não existisse? Talvez nem mesmo na atual situação de crise política e econômica e com todo o carisma de Obama. A grande novidade que a Web e sua multidão de pequenos agentes oferecem é um certo contrabalanço à festa da manipulação levada a cabo por setores da mídia centralizada; um pouco de caos pode trazer muito mais luz do que se imagina.

A esperança é de que daqui para frente essas pequenas multidões desenvolvam métodos de inteligência coletiva e participativa cada vez mais eficientes para fazer frente ao controle de velhas oligarquias políticas e midiáticas. Fatos interessantes no programa político de Obama, que vem sendo escrito após sua eleição, valem a pena serem ressaltados nesse contexto. Contrariando tendências ideológicas do governo republicano, um de seus pontos, na área de comunicação e tecnologia, diz (tradução minha): “Uma das razões mais importantes para o sucesso da Internet é o fato de ela ser a rede mais aberta na história. E precisa continuar sendo. Barack Obama apóia veementemente o princípio da neutralidade da rede para preservar a competição aberta na Internet”. Tal declaração vai de encontro a projetos corporativos nos EUA, que recentemente vêm mostrando interesse em criar infraestruturas diferenciadas de acesso à Internet, oferecendo redes gratuitas e lentas para alguns, e construindo redes de acesso rápido e pago para outros. A segunda teria maior participação e controle de grandes grupos políticos e empresariais. Paulatinamente vêm surgindo movimentos inversos em vários setores não corporativos sob a bandeira do movimento chamado “net neutrality” (neutralidade da rede).

Em outra passagem, em direto ataque às tendências mostradas pelo governo Bush, seu programa diz: “As plataformas abertas de informação do século 21 podem tentar instituições a violar a privacidade dos cidadãos. Como presidente, Barack Obama vai fortalecer as proteções à privacidade na era digital e vai incrementar o poder da tecnologia a fim de responsabilizar o governo e empresas por violações da privacidade pessoal.” E mais uma: “Obama valoriza as liberdades da primeira emenda e o nosso direito à expressão artística e não vê regulamentações como resposta possível a essas questões”. E ainda: “Barack Obama acredita que precisamos reformar nosso sistema de direitos autorais e patentes para promover o discurso cívico, inovação e investimento…”.

São posições políticas relevantes em um tempo em que a rede mundial de computadores começa a balançar diversos sistemas de proteção e elitização do conteúdo intelectual, do controle da expressão e da liberdade individual. Tal engajamento é necessário a fim de manter as opções de ação adquiridas nesses campos com o advento da tecnologia digital e da WWW. Fica uma sugestão: dê uma procura na Internet por “neutralidade da rede” ou “net neutrality” para se colocar a par das dificuldades que hoje vêm sendo enfrentadas para manter a Internet aberta, livre e como opção de construção de linguagens e ações alternativas. Ou acompanhe o blog do Sérgio Amadeu, pensador brasileiro que participa ativamente do processo de construção da nova legislação brasileira sobre a internet.

Alemar. S. A. Rena

 

[Publicado originalmente no Jornal Letras, BHZ]

LIBERDADE DE EXPRESSÃO PARA QUEM?

Peixes grandes comem peixes pequenos – Ilustração de Peter Brueghel, o Velho –  1556-1557

 

Coisas estranhas cercam o universo da notícia e do direito à informação e à liberdade de expressão no Brasil hoje.

Sou professor de um curso de Comunicação Social em Belo Horizonte, nas áreas de Jornalismo e Publicidade, mas não sou jornalista e nem nunca o quis ser, sou formado em Letras com mestrado em Teoria da Literatura, com alguma ênfase em processos de comunicação; me interessam as questões de comunicação, porque me interessam as questões de poder no mundo. Embora algumas propostas didáticas, teóricas e metodológicas nestes cursos superiores são por vezes falhas e acabam por formar pessoas incapazes de agir e pensar satisfatoriamente sobre uma dada realidade social, econômica e política complexa, reconheço o imenso valor que um curso superior pode ter na qualidade da prática profissional, seja ela jornalística ou não, e acredito que algumas profissões não prescindem do diploma superior. Sou defensor do desenvolvimento intelectual em qualquer nível; acredito que apenas ele faz grande diferença no mundo quando se trata de desenvolvimento humano.

Minha formação na área de línguas, artes e literatura deixou mais claro algo que às vezes passa despercebido: comunicar é, antes de mais nada, uma ação que envolve poder, é uma ação política, para o bem ou para o mal. Mais ainda, é uma ação política complexa que envolve valores discursivos de ordem cultural e econômica. Por isso o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos diz o seguinte:

“Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem consideração de fronteiras, informações e idéias por qualquer meio de expressão.”

Ainda, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, em seu artigo 11, já dispunha de forma semelhante: “A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei”.

Por fim, a Magna Carta vigente desde a primeira constituição brasileira diz em seu artigo 5: “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; e em seu artigo 220: “A manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição”.

Por essa razão também a exigência do diploma para se exercer a profissão de comunicar notícias e outros formatos de informação vem sendo veementemente questionada por diversos pensadores no Brasil e pelo Supremo Tribunal Federal. O site O Jornalista publicou uma pesquisa de enorme utilidade pública para entendermos a nossa situação em completa dissonância com o mundo democrático desenvolvido nesta área (http://www.ojornalista.com.br/pesquisa.asp). Segundo o site, os EUA contam com 400 faculdades e universidades que oferecem o curso de Jornalismo; 120 oferecem pós-graduação na área e 35 oferecem doutorado. Lá, a maioria dos profissionais contratados cursaram uma faculdade de Jornalismo. Mas o que torna isso uma realidade é o próprio mercado e a sociedade; nos Estados Unidos da América não há a exigência do diploma em lei. Aqueles que acharem necessário, por quaisquer razões, falar, noticiar, reclamar, opinar, divulgar, em qualquer nível ou meio, qualquer informação (desde que atenda a preceitos éticos básicos que valem para todos os cidadãos), podem fazê-lo livremente, inclusive em um jornal diário de grande circulação.

Na Alemanha, Áustria, Finlândia, França, Grécia, Hungria, Itália, Países Baixos, Portugal, Polônia, Suécia, Suíça, Japão, Marrocos, China, Austrália, Argentina, Chile, Guatemala, Peru, entre vários outros países, situação semelhante é constatada, isto é, não há necessidade de formação superior para ser jornalista ou informar em meios de comunicação de qualquer natureza. Na Europa, apenas 4 países entre os 16 pesquisados exigem o diploma: Turquia, Ucrânia, Croácia e Bélgica. O caso mais interessante na pesquisa é o da Croácia, onde “para o exercício profissional do jornalismo no país é preciso completar a Faculdade de Ciências Políticas, no Departamento de Jornalismo e línguas estrangeiras na Faculdade de Filosofia”.

A grande maioria dos países pesquisados que exigem o diploma para exercer a profissão se encontram na África (Congo, Costa do Marfim, África do Sul, Cabo Verde, Tunísia), Oriente Médio (Arábia, Síria), e América Latina (Brasil, Colômbia, Honduras e Equador) sendo que muitos destes países vivem em sistemas políticos cuja organização, por razão ou outra, geram graves exclusões, por vezes em desacordo com os direitos humanos em outras áreas para além da liberdade de expressão.

Em carta enviada ao Supremo Tribunal Federal, o FNPJ (Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, www.fnpj.org.br), na tentativa de convencer os ministros a votarem a favor da exigência de formação superior, expõe alguns problemas do raciocínio falacioso do qual se valem aqueles que defendem o diploma para atuar na área; a seguir, comento alguns trechos:

“o jornalista não é um opinador público ou o portador de um uma espécie de registro que supostamente lhe daria o mandato, exclusivo, para opinar. Ao contrário, por dever ético e eficácia técnica, o jornalista não manifesta seu pensamento no exercício profissional.”

Creio que esse argumento contém dois erros; primeiro, quando diz que, ao fazer jornalismo, nenhum julgamento pessoal está em jogo. Isso vai contra as fortes tendências nas ciências sociais como um todo de se desconstruir o mito da imparcialidade na elaboração do discurso, seja lá qual for sua natureza. Todo discurso, em maior ou menor grau, se posiciona, a começar pela simples escolha do tema que aborda. Portanto, um jornal ou um jornalista não precisam emitir opiniões expressas para se posicionarem. Os conteúdos escolhidos para seus cadernos são, talvez, a mais eficiente forma de colocação e intervenção ideológica nos meios de massa. É claro que alguns apontarão os critérios de noticiabilidade como garantia de isenção, mas esses também são uma ficção; a sociedade é induzida a dar importância àquilo que a mídia mostra com mais freqüência, portanto a própria noticiabilidade é uma construção que sofre fortes influências dos meios de comunicação de massa. Se referindo à cultura, Adorno e Horkheimer chamariam esse processo de “círculo de manipulação e necessidade retroativa”, em seu célebre texto “A indústria cultural”.

Não há isenção, por isso a construção destes valores na sociedade tem que se dar de forma ampla, diversificada e absolutamente livre, buscando fazer um contraponto com setores corporativos que detêm grande poder de influência. Ainda, a crença de que o jornalista não deve manifestar seu pensamento no exercício profissional, como o texto da carta sugere, é, a meu ver, um equívoco da concepção de sua função social. O que acontece é que os meios de comunicação sem dúvida expressam pensamentos e valores; isto não seria tão grave se estes valores e pensamentos não fossem expressados justamente de forma velada, se escondendo atrás da tão aclamada “objetividade” ou “imparcialidade” da notícia. E mais: seria ridículo limitar a prática jornalística a textos de caráter noticioso. Basta abrirmos um jornal para vermos que ele é feito de estratos extremamente diversificados, linguagens diversas que englobam amplo campo de habilidades específicas, muitas das quais jornalistas com diploma jamais chegam a estudar e/ou dominar.

Em segundo lugar, a carta coloca:

“Ao contrário, é dever do jornalista assegurar a todos o máximo de acesso aos espaços de opinião da sociedade representados pela mídia.”

Ora, está mais do que óbvio que isso não acontece na realidade por razões semelhantes às citadas acima, nos casos menos óbvios, e, em casos mais graves, porque o preenchimento do espaço segue critérios de ordem econômica, publicitária, política. Ainda, a carta continua:

“O jornalismo moderno, porém, é o jornalismo informativo, e seu produto por excelência é a notícia, mais complexa ética e tecnicamente de ser trabalhada.”

Esta crença exagerada na técnica é mais um entrave ao desempenho pleno do papel do jornalista. A técnica pode ser importante, mas a sua exacerbação pura, desprovida de julgamento, criatividade e autonomia é nociva para a construção de uma inteligência social, e, no fim das contas, quando praticada com a intensidade que vemos hoje, acaba por gerar um emburrecimento generalizado. Podemos perguntar ainda qual técnica é considerada certa ou errada, segundo quais interesses. Como já disse, os processos de comunicação social são complexos e devem atender a interesses e circunstâncias extremamente diversificados, não cabendo um fechamento a priori por técnicas e métodos (desde, é claro, que não se infrinja condutas que dizem respeito, antes, à convivência social na sociedade de direito, e não à técnica de produção da notícia especificamente).

O que deixa essa defesa à oficialização do direito de expressão nos meios de comunicação mais sinistra do que já era é o forte crescimento da importância das formas de comunicação em rede no cenário atual; a Internet, ambiente de comunicação edificado com legítima e ampla participação do corpo social, não permite, dada sua natureza técnica, a aplicação de tais restrições aos processos comunicativos. Desta forma, me pergunto: perante estas limitações legais, é permitido dar notícias, sejam lá quais forem, em um blog público (portanto numa publicação digital), sem que se detenha o diploma de jornalista? Posso ter um portal de notícias sobre uma área que me interessa, digamos, a produção científica no campo da literatura, sem que tenha formação superior em Jornalismo? Estas dúvidas, quando são colocadas no contexto da Internet, parecem descabidas, mas são, do ponto de vista de tal legislação restritiva, absolutamente pertinentes.

Creio que, se alguém quer ser jornalista, fazer carreira na profissão, a opção de poder obter um diploma de curso superior na área é interessantíssima. E o mesmo vale para a maioria das profissões. Mas isso não deve tirar o direito das pessoas sem formação superior ou em Jornalismo de noticiar e expressar, em ambientes diversos (jornais comunitários, blogs na Internet, entrevistas específicas em jornais, reportagens, etc.). Como diz o pensador francês Pierre Lévy, “não se pode ter ao mesmo tempo a liberdade de informação e a seleção a priori das informações por uma instância que supostamente sabe o que é bom e verdadeiro para todos, seja essa instância jornalística, científica, política ou religiosa.”

Alemar S. A. Rena

 

[Publicado originalmente no Jornal Letras, BHZ. Apresentado aqui com pequenas modificações]

DIVERSIDADE, CRITICIDADE E OS MEIOS

 

Foto: Marcelo Maia //

A palavra cultura é de origem latina, quando estava ligada às atividades agrícolas; vem do verbo latino Colere que quer dizer cultivar. No entanto, seu significado atualmente parece bem complexo. Ampliando seu sentido, seríamos levados a crer que a cultura deveria ter alguma relação com a idéia de formação ou construção de um tecido polifacetado de relações sociais, simbólicas, técnicas, epistemológicas etc. das quais um povo poderia se apropriar para diversos fins.

Mas hoje a cultura seria, talvez em sua forma mais contundente, o plano pelo qual instituições economicamente guiadas se apropriam do conteúdo intelectual e o transforma em produtos para o comércio. Assim, a idéia de cultura passa a ter estreita relação com a dimensão social pela qual se manifestam relações de poder de ordens midiáticas, econômicas, estéticas e sociais.

Infelizmente, percebe-se que a divulgação de informação nos meios de massa não cultiva primariamente um repertório diversificado, democrático, dinâmico de possibilidades estéticas e conceituais, mas a perpetuação de formas (ou fórmulas?) que são eleitas para serem transformadas em propriedades privadas e comercializadas em grande escala. Convivemos assim com uma pletora de referências simbólicas e conceituais que não refletem a diversidade, a vontade interativa e participativa do corpo social. Poder-se-ia argumentar que é justamente a repetição, a comodidade e a não-interação que os espectadores dos meios de massa aspiram. Mas acredito que não. Tal argumentação parece falsa, pois não há vontades essenciais e intrínsecas a um espectador/leitor; ele, a maneira como seu cérebro está arranjado, o que deseja, os valores que preza e como age é em grande parte construção do meio e atualmente da própria indústria da informação de massa um-todos (as TVs, os jornais, as revistas, as rádios tradicionais).

Assim, quando, por exemplo, um diretor de uma novela defende a superficialidade dos debates que propõe dizendo que respeita os desejos e a capacidade de aprofundamento de seu espectador, tal diretor ignora que, neste contexto, a massa já se encontra no estado de, como propuseram os pensadores Adorno e Horkheimer já na década de 40, “sociedade alienada em si mesma”, resultado do “círculo da manipulação e da necessidade retroativa” implementado pelos próprios meios. Seus desejos ou sua capacidade de refletir sobre temas complexos em sua complexidade são em certo nível resultantes da própria qualidade da novela que este espectador assiste há anos e que lhe serve muitas vezes como principal fonte de reflexão sobre tais temas. Obviamente, tal discussão não tem nada a ver com a questão de que devemos ou não deixar de ver novela. Assistir à novela ou não assistir é uma falsa questão; o problema surge quando a discussão da novela das oito sobre o clone humano ou sobre a tensão racial vira o único palco de debate de temas tão sérios (quando muito acompanhada de rapidíssimas e superficiais exposições sobre o tema em um telejornal diário), para uma enorme fatia da população em um país que precisa tão urgentemente refletir sobre tantas realidades emergenciais e complexas ao mesmo tempo.

O que se tem hoje, portanto, é um estado de coisas (do qual a novela é apenas um exemplo) que faz com que a informação que chega até a esmagadora maioria seja precária. Então onde exatamente está o problema?

A indústria de conteúdo almeja o lucro máximo a partir de um custo mínimo. O comprometimento com a qualidade conceitual vira luxo entre estes meios centralizados. Para estas empresas é preciso a todo custo ampliar a massa de potenciais consumidores vendendo conteúdos cada vez mais baratos e facilmente reconhecíveis e assimiláveis. E a cultura? A cultura vira refém desta situação. A cultura, em seu sentido mais amplo hoje, passa a ser aquilo que é difundido por este esquema.

Creio que há um vácuo no segmento de publicações culturais de menor fôlego mas justamente mais independentes, experimentais e refletivas. Penso que esta pode ser uma das saídas (juntamente da descentralização radical oferecida pela Web, é claro) para o atual quadro. Precisamos de muito mais exceções. Precisamos valorizar mais e mais a informação menor, livre e crítica; precisamos nos desapegar um pouco do vício do dado desconectado, inútil, ligeiro, propagandístico ou estrangeiro e nos voltarmos mais para o entorno, para as questões fundamentais da nossa sociedade, e para as perguntas. Precisamos precisamente perguntarmos mais. E creio que isso não significa ser “cabeça”, chato, mas carregado de força transformadora, propositiva, inventiva.

Alemar S. A. Rena

 

[Publicado originalmente no Jornal Letras, BHZ]

APRESENTAÇÃO: “DO AUTOR TRADICIONAL AO AGENCIADOR CIBERNÉTICO”

Leia apresentação de Eduardo de Jesus do livro Do autor tradicional ao agenciador cibernético: do biopoder à biopotência, que lancei pela editora Annablume (SP, 2009).

Alemar Rena —

 

Onde está o autor? Texto: Eduardo de Jesus

O autor e a autoria, assim como os complexos processos sociais, econômicos, políticos e culturais detonados por essas instâncias, marcam, de alguma forma, a produção cultural. Tanto aquela mais arraigada nas tradições cristalizadas ao longo do tempo, quanto as mais contemporâneas, viabilizadas, entre outros, nos produtivos e tensos encontros com o ambiente digital, as redes telemáticas e seus potentes processos de territorialização e desterritorialização. Além das formas culturais que já conhecíamos, passamos a experimentar outras situações, tensionamentos e derivações na produção artística e cultural contemporânea. Essas passagens são motivadas, entre outros fatores, pelo modo como nossas formas de produzir e experimentar a cultura passaram a se ligar também a toda uma base tecnológica que altera os processos de subjetivação, as formas de presença e a circulação de bens culturais.

Se tomarmos uma vertente mais pessimista poderíamos certamente pensar em torno de um colapso cultural, de uma espécie de fim da cultura. No entanto, o mais sensato é pensar que com os meios digitais estamos estabelecendo não uma cultura ou lógica cultural, mas uma metacultura, como afirma Jean-Louis Weissberg, “com incidências contraditórias movimentando dinâmicas menos legíveis que parecem a primeira vista”. É preciso estabelecer uma nova perspectiva que consiga dar visibilidade às contradições e paradoxos desse contexto cultural que vem sendo aos poucos construído e acoplado à lógica tradicional. Não se trata de empreender uma tentativa, quase inocente, de uma possível situação apaziguante e pouco crítica, mas buscar através de reflexões, experiências e enfretamentos típicos da vida social contemporânea algum indício que sinalize o que vem sendo alterado e como. Não há mais volta. Nosso envolvimento com as diversas tecnologias, nas muitas dimensões e instâncias da vida social, não permite mais um recuo.

Alemar Rena parte desses mesmos questionamentos e possibilidades abertas pela tecnologia para tentar decifrar os caminhos e descaminhos pelos quais a figura do autor atravessa na paisagem cultural contemporânea. Nessa sociedade nitidamente marcada pela intensa infiltração do capital nas relações sociais e pela forte incidência das diversas tecnologias no cotidiano mais ordinário é que nascem situações culturais que podem nos levar a criar, como afirmou Guattari, uma era “dissensual pós-midiática”.

Longe das dicotomias e das visões estanques, Rena nos propõe uma reflexão – um “pulsar investigativo” – em torno das relações de autoria na contemporaneidade, especialmente aquelas mais ligadas ao ambiente telemático. Com uma verve de natureza transdisciplinar, Rena desenvolve as linhas de força que criaram e deram sustentação à idéia da autoria, numa espécie de “arqueologia do autor” convocando o pensamento de teóricos como Bakhtin, Barthes, Eco, Rorty, Fish e Compagnon entre outros. Foucault, Deleuze e Guattari são também autores centrais nessa reflexão. De Foucault, Rena aborda o seminal “O que é um autor”, que serve de referência para um profícuo diálogo com as noções desenvolvidas pelo autor e os desdobramentos atuais no domínio do capitalismo cognitivo. Da mesma forma as noções dos processos de subjetivação de Guattari e os agenciamentos maquínicos de Deleuze dão corpo à reflexão que se inclina na descrição de um cenário dinâmico e sempre em conflito.

Nesse cenário são colocadas em jogo as diversas formas de controle que orbitam na produção cultural, os circuitos de legitimação gerenciados pelos meios de comunicação de massa e as alterações nos sistemas de distribuição como alguns dos pontos que favorecem o surgimento do “ciberagenciador”, uma outra forma, ainda mais instável, que o pólo da autoria assume na contemporaneidade. Nesse pólo, em distintas configurações individuais e coletivas, amplia-se o grau de complexidade da autoria, que passa a fazer parte de um processo de territorialização e desterritorialização típico das redes telemáticas. Em sua reflexão, Rena explora as situações em rede como as webarts e outras off line como o tecnobrega de Belém do Pará e seus cd´s oficiais e piratas ao mesmo tempo. Essas manifestações, por mais distantes que sejam, fazem parte de uma outra forma de agenciamento, que freqüentemente é coletivo, aberto e bastante fluido ultrapassando as restrições da cultura de massa e da própria tradição cultural, dando lugar a uma outra forma de autoria, que circula entre novos arranjos de operadores e circuitos.

A reflexão empreendida por Alemar Rena nos mostra um trajeto aberto, com a descrição de diversas experiências, no qual podemos perceber que as práticas culturais contemporâneas são reconfiguradas em movimentos de contaminação e sobreposição. Durante o trajeto as situações podem mudar nos mostrando as instabilidades inerentes ao ambiente da rede telemática. Não há estabilidade neste contexto e talvez por isso Rena fale de trajetos. Essa opção, longe de reduzir a questão colocada acaba por ampliá-la ainda mais questionando os limites da autoria e da figura do autor. Esse trajeto-processo dá contorno a um pensamento que cria suas definições na urgência do movimento, na fluidez das interações mediadas e no confronto criador com uma paisagem cultural absolutamente contraditória que se desenvolve diante de nós.

Eduardo de Jesus é graduado em Comunicação Social pela PUC Minas, Mestre em Comunicação pela UFMG e Doutor pela ECA/USP. É professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas. Faz parte do Conselho da Associação Cultural Videobrasil.