A ERA DA NÃO LITERATURA: EM 140 CARACTERES

Foto: Cara Barer —

Segue uma entrevista dada à revista Diversa da UFMG sobre novos formatos literários na cibercultura. Ela saiu em forma de uma matéria, na edição de número 18 (baixe o PDF aqui), quase inteiramente dedicada à comunicação em rede. Outros profissionais também foram consultados para a matéria, como poderão ver.

POR ANA FLÁVIA DE OLIVEIRA

Microblog ajuda a reconfigurar formas literárias e define novas posições para leitores e autores Romeu e Julieta estão no Twitter. A ideia de levar os protagonistas da obra de William Shakeaspeare partiu da Royal Shakespeare Company (RSC), companhia de teatro inglês criada em 1879. O projeto recebeu o nome de Such Tweet Sorrow e sua proposta é reescrever Romeu e Julieta pelo Twitter. Atores da RSC encarnaram os personagens do dramaturgo e estão desenvolvendo a trama por meio da rede social, num misto de improviso e atuação roteirizada. Os protagonistas interagem não apenas entre si, mas também com os leitores, contando fatos cotidianos, postando fotos e vídeos.

Essa e outras experiências mostram que a internet está mudando os parâmetros de criação artística. “É possível que nossos filhos venham a viver em um mundo onde as grandes fontes de referências serão coisa do passado. Eles estariam mais conectados a uma lógica da inteligência coletiva, da construção em processo e da rede”, diz o mestre em Teoria da Literatura pela UFMG e doutorando em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP Alemar Rena.

Microblog no qual os usuários podem escrever textos – ou tweets – de até 140 caracteres, o Twitter, além de estimular conversas cotidianas, está se transformando em ambiente de produ- ção literária. A nova modalidade tem até nome: Twitteratura. Especula-se que o termo tenha surgido quando dois estudantes da Universidade de Chicago tiveram a ideia de escrever um livro recontando alguns dos maiores clássicos da literatura mundial em vinte tweets ou menos.

As redes sociais surgem com ares de novidade, mas sua lógica vem de longa data. “Antes de conviverem com as tecnologias de comunicação em massa, as pessoas trocavam conteúdos intelectuais que conformavam a cultura, os hábitos, a vida cotidiana através de processos extremamente ligados a uma lógica de comunidade, proximidade geográfica, valores compartilhados na tradição”, diz Alemar Rena. Para ele, a comunicação pela internet representa o retorno a uma modalidade de troca mais espontânea, marginal e comunitária.

Rena destaca que a literatura não é um tipo de produção cultural estanque e que, ao longo dos séculos, já assumiu diversas formas como a contação oral, o pergaminho, o livro e, mais recentemente, o hipertexto e a twitteratura. “É verdade que essas mudanças estão se dando cada vez mais rapidamente e isso é algo sobre o qual devemos refletir, pois acarreta uma série de efeitos em diversas áreas, como a educação, a psicologia, o meio ambiente e a economia”, diz. Para o escritor C.S. Soares, no cenário atual, a twitteratura pode significar uma importante contribuição à produção literária: “As experiências sempre renovaram a literatura. Já dizia o escritor e teórico francês Maurice Blanchot que o futuro da literatura está na ‘não literatura’”.

Nem tão específico assim

Na literatura, cada tipo de texto possui sua especificidade – linguagem, suporte, tamanho, entre outras. Assim também acontece com a twitteratura, que, além da economia de palavras, tem a velocidade de postagem como um dos seus principais atributos. “A relação com o tempo sempre variou entre as sociedades e os períodos históricos. Hoje há uma explosão de informação disponível e acessível, e as pessoas tendem a possuir atenção muito mais difusa, o que cria hábitos de leitura diferentes do que estávamos acostumados, para o bem ou para o mal”, teoriza Alemar Rena.

A questão da interatividade também é uma característica marcante da Twitteratura, mas como mostra C.S. Soares, não é exclusiva das redes sociais. Segundo ele, o leitor tem cada vez mais necessidade de configurar seu ambiente de leitura. “O poder de selecionar o texto a ser lido está na mão do leitor, que vai interagir com a própria obra”, diz. Como exemplo, o escritor cita as Fanfics, muito populares entre os adolescentes. Fanfic é abreviação do termo fan fiction, ficção criada por fãs. Nelas, usuários utilizam-se de personagens e universos ficcionais que não foram criados por eles.

Os fãs podem fazer alterações no texto, pois códigos de programação aceitam entradas do leitor-usuário e essas informações passam a fazer parte da história. Segundo C.S. Soares, “essa interação não é uma novidade, uma vez que o livro é uma rede social em que interagem autores, leitores e referências: pessoas e livros conversam entre si”. O que o Twitter faz é potencializar o processo de abertura da obra. O escritor destaca que as narrativas publicadas em redes sociais incorporam o diálogo com os leitores e podem invadir o fluxo do texto literário. “A experiência do autor e a visão do leitor acrescentam camadas de criação à obra. Ambas podem coexistir e ser complementares”, diz.

Para o doutorando em Cinema pela UFMG e escritor Leo Cunha, o diálogo proporcionado pelo Twitter é fascinante e se reflete diretamente no texto. “Na Twitteratura, temos acesso direto ao leitor e a seus comentários. Essa interatividade é essencial, pois nos estimula a responder, comentar, retwittar.” O autor conta, ainda, que muito do que escreveu na mídia social deu-se sob influência direta de comentários de outros usuários.

Velho novo texto Característica marcante do Twitter, a limitação de caracteres também se impõe à literatura. “Essa ideia de escrever histórias com poucas palavras não é nova, faz parte de um gênero chamado flash fiction”, ressalta Alemar Rena. Além dessa modalidade, outras poderiam ser comparadas ao Twitter, como lembra C.S. Soares. “Aforismo, koan, wordplay, provérbios etc, todos têm alguma relação com as formas breves e, logo, com o Twitter. A própria Bíblia de Robert Estienne, impressor francês do século 16, o primeiro a rodar o chamado livro sagrado com a estrutura de capítulos e versículos, revela que o texto breve ajuda, por exemplo, na manutenção do foco e da memorização”, ressalta. Opinião semelhante tem a jornalista e pesquisadora de redes sociais Raquel Camargo: “Podemos encontrar coisas parecidas nas produções dadaístas, por exemplo. Ainda podemos citar os haicais e os epigramas”, diz.

O haicai é um poema de origem japonesa, formado por 17 sílabas e que contém alguma referência à natureza. Os epigramas, por sua vez, são composições poéticas curtas, criadas na Grécia antiga. Nesse sentido, tanto o Twitter como o epigrama e o haicai seriam formas de produção textual calcadas na ideia de síntese e exigiriam brevidade do escritor. Alemar Rena destaca, no entanto, uma diferença entre esses textos e aqueles produzidos no Twitter. “Uma distinção crucial é que as pequenas cenas criadas no Twitter podem ter continuidade, resultando em uma grande história com pequenos flashes de 140 caracteres. Aqui percebemos outra qualidade da comunicação em rede: a obra em processo, em que o início e o desfecho são menos importantes do que o desenrolar”.

Autoria

Se no universo dos livros a autoria é mais explícita e definida, o mesmo não acontece na twitteratura. “Por mais que se assine um texto, é muito mais fácil reproduzi-lo, integral ou parcialmente, inclusive alterando o contexto. E nem sempre se atribui a autoria correta de um tweet”, diz Leo Cunha. O escritor também cita a questão dos retweets, que, além de se configurarem como forma de citação, possuem aspecto autoral: “Quem dá um retweet está dizendo ‘olha que legal isso que o fulano escreveu’, mas também ‘esse é um texto que eu assinaria embaixo, que eu gostaria de ter escrito’”, afirma. Para Leo Cunha, ao repassar os tweets de outras pessoas, os usuários fazem escolhas e, por meio do conjunto, pode-se perceber uma visão de mundo e, portanto, certo olhar autoral.

Alemar Rena destaca, no entanto, que é importante separar autoria de propriedade intelectual. “Antes da invenção da imprensa por Gutenberg, em meados do século 15, e mesmo séculos depois, a autoria importava não como fonte para acúmulo de grandes riquezas. Isso passou a acontecer a partir do Renascimento”, diz. Naquela época, a figura do autor passa a ser importante, uma vez que garante a validação dos discursos e permite à nobreza e ao clero exercer controle sobre eles. Segundo o pesquisador, o avanço das tecnologias de comunicação de massa e o fortalecimento do capitalismo e dos setores privados oferecem condições para duas práticas: a divulgação massiva dos produtos, culminando na publicidade e propaganda, e o surgimento de uma indústria da cultura. “Nesse contexto de comercialização da inventividade social, o autor assume espaço especial, pois através da promoção de sua imagem – muitas vezes é elevado ao status de celebridade –, a indústria passa a edificar impérios da cultura em escala global”, explica.

Para Alemar Rena, a autoria remete a uma referência originária do discurso: “É claro que na prática nenhum discurso tem origem, pois eles são tecidos a partir da trama de outros discursos anteriores, mas gostamos de acreditar que tal origem existe porque facilita a contextualização da informação, a produção de sentido, a atribuição de credibilidade e, no caso do comércio, a fixação de um proprietário absoluto”.

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