A BREVIDADE DA ANONIMIDADE

Na foto: The Mobee —

Numa análise automática de faces da minha biblioteca de fotos digitais, das 231 imagens que o Google Picasa apontou espontaneamente como sendo de uma amiga, 227 estavam corretas. Errou apenas 4, em que a confundiu duas vezes com sua irmã, e duas vezes com sua prima, muito parecida com ela. No meu caso, o software me identificou em 311 imagens corretamente.

Nós, que já estamos acostumados a sermos superados pelo computador em áreas que envolvem raciocínio lógico e cálculos, podemos começar a nos preparar para coisas dessa natureza, viver com uma máquina que reconhece sua mãe em fotos mais rápido e eficientemente que você.

Caminhamos cada vez mais para uma encruzilhada entre o que queremos manter privado e o que queremos ou precisamos compartilhar. Não é uma questão nova, e imagino que, quando Napoleão decidiu numerar as casas para melhor controlar as multidões na França do séc. XIX, ela lá já se instalava. A novidade é que a privacidade hoje vem sendo renunciada por uma considerável parte das pessoas na expectativa de se obter em troca vantagens e aperfeiçoamentos nos serviços oferecidos pelas empresas, principalmente nas diversas redes da Internet.

Sabendo onde me encontro, por exemplo, o robô virtual da Google (o Googlebot) pode responder com muito mais precisão a uma pesquisa qualquer no seu Google Maps sobre, digamos, serviços de chaveiros. Ou ainda, usando tecnologias semelhantes às do Google Picasa, o software de reconhecimento de faces do Facebook pode, por exemplo, me dizer (ou dizer aos meus amigos) automaticamente em que imagens em sua vasta rede minha face se encontra presente.

Zigmunt Bauman recentemente escreveu para o Guardian um artigo sobre o assunto intitulado “Is this the end of anonimity?” Nele avalia como, de micro-drones à internet, a tecnologia invade a esfera privada com nosso encorajamento. Os micro-drones, máquinas desenvolvidas com fins militares para sobrevoar e espionar uma determinada área geográfica, estão hoje super avançados, e chegaram ao tamanho de insetos. Isto é, existem hoje tecnologias suficientemente sofisticadas não só para identificar sua face em meio a uma multidão sem muita dificuldade, mas também para gerar insetos voadores que podem coletar dados e os enviar a um banco de dados. Se você acha que estou exagerando, baixe o Picasa e faça o teste. E assista ao vídeo acima.

Uma consequência para a qual Bauman chama atenção é o aumento da indiferença do público, especialmente nos EUA, em relação às guerras, uma vez que progressivamente menos vidas (do lado daqueles que detêm a tecnologia bélica) são colocadas em risco. No Afeganistão, por exemplo, mais de 1.900 insurgentes foram mortos com o apoio de drones. Outras radicais possibilidades são entrevistas com o uso destes objetos inteligentes enquanto estratégia de espionagem; imagine se cada mosquito ou pássaro no mundo puder, inadvertidamente, ser um objeto de bisbilhotagem nas mãos do Estado ou de criminosos.

Na publicidade, a subversão da anonimidade ao estilo “Minority Report” já ganha o mundo real. Recentemente uma matéria do TechCrunch revelou que uma empresa americana chamada Immersive Labs levantou quase um milhão de dólares para pesquisar painéis de anúncios com reconhecimento facial que poderiam assim oferecer a cada transeunte informações personalizadas sobre os produtos em “display”. A diferença em relação a “Minority Report”, salvo engano, é que no filme de Spielberg os painéis leem a íris dos passantes, em vez da face.

É importante, entretanto, frisar que a atual realidade difere-se substancialmente daquele mundo imaginado por George Orwell em “1984”, livro escrito na década de 1940 e considerado uma das mais importantes representações literárias de uma sociedade distópica. Difere-se também do contexto sociopolítico que influenciou Orwell, isto é, o vertiginoso ganho de poder de Estados autoritários no Ocidente e a tentativa de invasão e dominação da Europa pela Alemanha de Hitler. Os procedimentos nazistas em direção ao controle dos corpos passavam, vale lembrar, pela eugenética e higiene racial e implicavam experimentos com humanos e o extermínio de grupos populacionais para se atingir uma raça pura e superior. Aqui, a invasão da liberdade e violação do corpo atingem um ponto alarmante e adentram o campo da manipulação genética (mesmo que sob a sombra da enquanto primitiva tecnocracia do Holocausto), uma fronteira que, embora estivesse no horizonte de preocupação de ficcionistas como Aldous Huxley com seu “Admirável mundo novo” (1932), ainda se coloca para nós, cidadãos do séc. XXI, como um mundo apenas tateado e perigoso de ser explorado.

Não por acaso, assim como “1984”, “Admirável mundo novo” foi escrito num contexto de difusão das ideologias totalitárias na Europa da década de 30. Imaginário futurista similar a esse, em que as massas estão constantemente sendo vigiadas por câmeras e agentes do Estado, persistiu até a década de 60, com filmes como “Alphaville”, de Jean-Luc Godard. Porém retornaria com nova roupagem, desta vez pelo imaginário cyborg de Philip K. Dick em “Do Androids Dream of Electric Sheep?” (1968) e, mais adiante, pelo espectro do controle cibernético do mundo decadent punk de William Gibson em “Neuromancer”, de 1983.

Aqui o controle ganha contornos mais estranhos às gerações modernas e se aproxima das pós-modernas ao alocar o perigo imediato, não apenas no homem, mas na eventual autonomia adquirida pelas máquinas inteligentes. Possuímos hoje, muito mais do que em meados do século XX, tecnologias que carregam grande potencial, mas será que a humanidade está pronta para levá-las às últimas consequências? A genética abre as portas para o poder extremo sobre o corpo, nos aproximando mais do que nunca da figura divina do deus cristão, porém impõe desafios imensuráveis. A última fronteira da medicina pode ser também a última fronteira para a exclusão e ampliação das diferenças entre os povos, as classes e as raças humanas na terra, e é, muito mais do que antes, uma realidade palpável.

Todavia, se cidades como Londres e até capitais brasileiras como Belo Horizonte se tornam paulatinamente mais monitoradas pelas câmeras e outros dispositivos, ou se a Google tem acesso ao comportamento de grandes populações e pode traçar, baseando-se em seu gigantesco banco de dados, tendências e gráficos sobre elas, isto se dá em um ambiente relativamente mais democrático e transparente do que aquele ficcional em que imperava a manipulação total da informação e da cultura pelo Big Brother orwelliano e sua ideologia IngSoc, embora, não sejamos ingênuos, levanta sérias questões sobre os jogos de poder e a violação da privacidade e seus fins.

Talvez a novidade, como apontou Bauman, esteja no fato de estarmos abrindo mão de nossa privacidade cada vez mais facilmente, sem termos plena consciência se o que recebemos em troca está, realmente, à altura do que oferecemos. No fim das contas, tendemos a nos parecer, na pior das hipóteses, mais com a subdemocracia de “Minority Report” do que com o hiperfascismo de “1984”.

O que, convenhamos, já é bastante desesperador. Mas, veja a ironia, a década de 1940 também tendia, para Orwell, a “1984”. Esta é uma lição que jamais se deve esquecer, pois antes de ser um alívio (não vivemos aquele mundo de “1984”), mostra que o futuro tende ao que nem sempre se espera, e todo cuidado com as tecnologias, sociais e materiais, como a história recente comprova, pode ser pouco.

Isso não significa que a saída se encontra numa inclinação à tecnofobia, como querem alguns radicais. Afinal, não faz sentido, por exemplo, negligenciar a Internet, que pode muito bem ser – apesar dos percalços (AI-5 Digital do Azeredo no Brasil, SOPA, FISA, ACTA e outros atos de maior ou menor sucesso para seu controle nos EUA e no resto do mundo) – a tecnologia mais potente já inventada para se construir a democracia e a liberdade, uma vez que permite que uma multidão disseminada, conectada e colaborativa devolva a pressão aos biopoderes imperiais.

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Texto originalmente publicado na Revista Select: http://www.select.art.br/article/reportagens_e_artigos/anonimidade

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